No dia 24 de maio de 2026, o Porto Maravalley, hub de inovação na região portuária do Rio de Janeiro, recebeu a primeira edição brasileira do Claude Impact Lab. O programa internacional de hackathon, organizado pela Anthropic, reuniu equipes multidisciplinares para construir, em um único dia, soluções de inteligência artificial aplicadas a dois dos maiores desafios urbanos brasileiros: saúde e segurança pública.
Leonardo Santos, consultor de IA e soluções que integra o ecossistema de parceiros estratégicos da Capiva, participou do evento como parte de uma equipe multidisciplinar de cinco profissionais — medicina, produto, IA e engenharia. A equipe conquistou o primeiro lugar na trilha de Saúde, com uma solução que repensa o trabalho das Agentes Comunitárias de Saúde do Rio de Janeiro a partir de um princípio inegociável: IA auditável, jamais autônoma em decisão clínica.
O que é o Claude Impact Lab
O Claude Impact Lab é um programa global da Anthropic que leva hackathons de IA para cidades ao redor do mundo. Antes do Rio, o programa já havia passado por San Diego, Miami, Santiago e Cidade do México. O formato é deliberadamente inclusivo: a participação é gratuita e não exige experiência prévia em programação ou inteligência artificial. As equipes reúnem profissionais de tecnologia, design, negócios, comunicação e políticas públicas. A premissa é que soluções de IA para cidades precisam de perspectivas diversas, não apenas de engenheiros.
A edição carioca foi organizada por João Lisboa, Claude Community Ambassador no Brasil e cofundador da Taicor, em parceria com a Prefeitura do Rio de Janeiro, o Maravalley, a Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e outros órgãos municipais. O secretário municipal de Desenvolvimento Econômico, Osmar Lima, posicionou o Rio como ambiente cada vez mais favorável à inovação. Patrocinadores incluíram CCPar, Visagio, VTex, Segura, Taicor e o próprio Maravalley.
O que aconteceu no evento
Cerca de 100 participantes foram selecionados entre mais de 600 inscritos. Durante o dia, as equipes receberam mentoria especializada e construíram protótipos funcionais usando o Claude, modelo de IA da Anthropic, como base tecnológica. Os projetos se dividiram entre os dois eixos temáticos do evento:
Saúde: Ferramentas para identificação preventiva de demandas, usando IA para antecipar necessidades antes que se tornem emergências. É o tipo de abordagem que transforma gestão pública de reativa em proativa — e que, no Rio, encontra terreno fértil dado o tamanho da rede de atenção primária.
Segurança pública: Soluções para integração de bases de dados de segurança, permitindo análises estratégicas cruzadas que seriam humanamente impossíveis no volume atual de informações.
Ao final do dia, as equipes apresentaram seus projetos para um painel que não foi decorativo: os Secretários Municipais de Saúde e de Segurança Pública do Rio de Janeiro avaliaram as soluções ao lado do time da Anthropic — ou seja, quem efetivamente operacionalizaria as ferramentas decidiu quais venceriam. É uma composição de júri rara em hackathons e que reforça a seriedade institucional do evento.
A solução vencedora: ACS Digital
A equipe vencedora da trilha de Saúde apresentou o ACS Digital, uma solução desenhada a partir de uma constatação simples e brutal: as Agentes Comunitárias de Saúde do Rio de Janeiro perdem aproximadamente uma hora por dia retranscrevendo, ao final da jornada, anotações em papel feitas durante as visitas domiciliares.
A escala do problema é difícil de ignorar. O Rio conta com cerca de 6.200 Agentes Comunitárias de Saúde cobrindo 4,5 milhões de moradores — a maior cobertura de saúde da família entre as capitais brasileiras e, possivelmente, a maior força de atenção primária ativa do mundo. Cada hora perdida por agente, multiplicada pela rede inteira, significa 6.200 horas de cuidado de campo perdidas todos os dias, ou, em estimativa preliminar da equipe, aproximadamente US$ 8 a 11 milhões por ano que poderiam estar irrigando o atendimento em vez do trabalho administrativo.
A entrevista com uma agente em atuação na Rocinha definiu o desenho do produto:
“Nenhum sistema vai me dar a lista que eu realmente vou andar. Eu conheço meu território.”— Agente Comunitária de Saúde, Rocinha
A solução, construída em um dia, é um aplicativo mobile que funciona offline — crítico em territórios com conectividade instável —, permite à agente registrar a visita na casa do paciente, no momento do atendimento, e entrega uma lista de prioridade semanal ancorada nos manuais oficiais do SUS e do Ministério da Saúde. As quatro categorias prioritárias mapeadas: hipertensão, diabetes, gestantes e crianças em vulnerabilidade social.
A decisão arquitetural mais importante — e que distingue o ACS Digital de qualquer solução genérica de IA aplicada à saúde — é o que não foi feito: nenhum modelo de linguagem opera em runtime clínico. O motor de priorização é determinístico, auditável, escrito em SQL puro. O Claude foi usado durante o desenvolvimento (para acelerar a construção do código e da documentação). O Claude não decide quem é visitado amanhã. Como o time formulou no pitch:
“IA é briefing, não comando. A profissional de saúde toma a decisão final — sempre.”
Princípio central do ACS Digital
Esse princípio responde à pergunta que todo gestor público responsável faz ao avaliar IA: se algo der errado, conseguimos explicar como a decisão foi tomada? No ACS Digital, a resposta é sim, linha por linha, regra por regra.
Em linha com o regulamento do evento — segundo o qual as soluções vencedoras são doadas à cidade do Rio de Janeiro —, o próximo passo da equipe é uma sessão de trabalho com a Prefeitura do Rio de Janeiro para integrar o ACS Digital ao Vitacare, o sistema de prontuário eletrônico municipal. A Anthropic acompanha a continuidade do projeto.
Como reforçou Martine, da Anthropic, no painel de encerramento do evento:
“You don’t need permission. The Impact Lab is not the solution, it’s a start.”
(Vocês não precisam de permissão. O Impact Lab não é a solução, é um começo.)— Martine, Anthropic
Por que isso importa: o Brasil no mapa da IA
A escolha do Rio como sede do Impact Lab não foi acidental. Em maio de 2026, dois movimentos da Anthropic tornaram inequívoca a aposta da empresa no Brasil:
- O Brasil é o terceiro maior mercado do Claude no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos e Índia. O dado foi reportado pela StartSe em 14 de abril de 2026, com base em informações da Bloomberg Línea.
- A Anthropic está montando estrutura local no Brasil, com escritório em São Paulo previsto para 2026 e contratações já em andamento.
- O Impact Lab Rio aconteceu durante uma semana de programação intensa no Maravalley, o hub de inovação da zona portuária do Rio que vem concentrando eventos e ativações do ecossistema carioca de tecnologia.
Esses sinais indicam que o Brasil não é mercado secundário para a Anthropic. É prioritário, com infraestrutura de comunidade ativa, demanda por soluções aplicadas e — como o Impact Lab demonstrou — disposição institucional para que prefeituras colaborem diretamente com times de IA na construção de soluções.
IA auditável e gestão pública: o ponto onde tudo se conecta
O tema do Impact Lab — IA aplicada a saúde e segurança pública — merece atenção especial porque, nesses dois domínios, a auditabilidade não é um nice-to-have. É a condição mínima de operação.
O modelo tradicional de gestão pública é reativo: o cidadão reporta um problema, a prefeitura recebe, classifica, encaminha e, eventualmente, resolve. Cada etapa depende de pessoas processando informação manualmente, em volume que excede qualquer capacidade humana razoável. Quando se tenta acelerar esse modelo apenas plugando IA generativa em decisões críticas, a pergunta de governança — “como justificamos essa decisão para a Controladoria, para o Ministério Público, para o cidadão afetado?” — fica sem resposta.
A alternativa que o ACS Digital exemplifica é diferente: IA generativa no desenvolvimento, lógica determinística e auditável na decisão. A inteligência artificial acelera a construção da ferramenta, escreve código, redige documentação, propõe arquitetura. A decisão que afeta um cidadão — quem é visitado hoje, quem é classificado como risco, quem entra em uma lista de prioridade — é tomada por regras transparentes, ancoradas em fontes oficiais, sempre revisáveis por um responsável humano.
Esse desenho não substitui o servidor público. Libera-o para o que exige julgamento humano, enquanto a tecnologia cuida do volume operacional repetitivo. Na prática, isso significa: um canal de escuta social que detecta insatisfação cidadã antes de virar crise. Um sistema de alertas que avisa moradores sobre riscos ambientais em tempo real. Uma lista de visitas priorizada por critérios públicos, não por opacidade algorítmica.
Essas não são projeções. São soluções operacionais — e o Claude Impact Lab é a prova de que podem ser prototipadas em um dia por equipes multidisciplinares, sem experiência prévia em IA.
A presença da Capiva
A Capiva acompanhou o evento de perto. Leonardo Santos, parceiro estratégico da Capiva, integrou a equipe multidisciplinar de cinco profissionais que conquistou o primeiro lugar na trilha de Saúde com o ACS Digital. O time foi composto por Laura Soares Anderaus (medicina), Vinicius Saraiva Andrade, Rafael Bressan, Daniel Seraphim e Leonardo — backgrounds combinados de medicina de família, produto, inteligência artificial e engenharia de software.
Para nós, o resultado confirma uma tese que operamos há meses: a maior oportunidade da IA no Brasil não está em substituir trabalhadores, e sim em multiplicar a capacidade de instituições que hoje operam muito aquém do possível. Prefeituras, secretarias, autarquias. Organizações com demandas enormes, orçamentos limitados e processos que a tecnologia certa pode transformar radicalmente — sem abrir mão de auditabilidade, controle e responsabilização.
O Impact Lab mostrou que, com a ferramenta certa, mentoria adequada e um time multidisciplinar, é possível prototipar uma solução funcional em horas. Uma implementação estruturada — com arquitetura pensada para escala, integração com sistemas existentes e governança desde o primeiro dia — consegue transformar esse protótipo em operação real em semanas.
O que vem pela frente
O Claude Impact Lab no Rio é um marco, mas é também um ponto de partida. Com a Anthropic sinalizando presença permanente no Brasil, o setor público carioca demonstrando abertura para colaboração com IA e a equipe vencedora prosseguindo para uma sessão de trabalho com a Prefeitura, o ecossistema está se formando em tempo real.
Para gestores públicos, a mensagem é clara: IA aplicada a governo não é mais experimental. É operacional, acessível e — quando bem implementada, com auditabilidade no centro — gera economia de escala que justifica o investimento desde o primeiro mês.
Para empresas e consultores que trabalham nessa interseção, o momento é de construir. Os eventos estão criando awareness. A próxima fase é converter awareness em deploy, e deploy em resultado.
A Capiva está nesse jogo. Se você é gestor público, secretário, diretor de inovação ou trabalha na fronteira entre tecnologia e serviço público, entre em contato. Queremos entender seus desafios, mostrar o que é possível com IA auditável — e separar, juntos, o que é promessa de marketing do que é solução pronta para operar.

